Literatura

20-06-2008

Eu apóio: e vocês?, por Nicolas Rouquette

Lançamento do livro de Ana Luiza Flauzina no Rio de Janeiro

Corpo negro caído no chão: o sistema penal e o projeto genocida do Estado brasileiro, de Ana Luiza Flauzina, é uma publicação da editora Contraponto, que será lançada no Rio de Janeiro.
O livro é o resultado da dissertação de mestrado de Ana Luiza Pinheiro Flauzina defendida na Universidade de Brasília, em 2006, e trata da questão do sistema penal brasileiro como um instrumento fundamental para a consecução do projeto genocida de Estado dirigido à população negra, em pleno vigor nos dias atuais.

Data: 26 de junho - quinta-feira

Local: Kitabu Livraria Negra - Rua Joaquim Silva N. 17 - Lapa - RJ (Ponto de referência, esquina com a Rua da Lapa)

Horário: a partir das 18:30, com uma breve comunicação da autora.

Tomamos o racismo como uma doutrina, uma ideologia ou um sistema sobre o qual se apóia um segmento populacional considerado superior, por causa de características fenotípicas ou culturais, a fim de conduzir e subjugar um outro, tido como inferior. Além de todos os aspectos presentes na definição, destacamos expressamente o caráter desumanizador inscrito na concepção de racismo. Em última instância, o racismo serve como forma de catalogação dos indivíduos, afastando-os ou aproximando-os do sentido de humanidade de acordo com suas características raciais. Essa peculiaridade faz dele uma das justificativas mais recorrentes nos episódios de genocídio e em toda sorte de vilipêndios materiais e simbólicos que tenham por objetivo violar a integridade dos seres humanos. (Ana Luiza Pinheiro Flauzina)

Apoio: Instituto Carioca de Criminologia

Realização: Editora Contraponto e Livraria Kitabu

Comentário meu: Imaginem se o Brasil acabasse com seu racismo?
Cliquem aqui. Imagine.




17-06-2008

O filho do lixo, por Nicolas Rouquette

Era uma jovem universitária na University of Southern California.  Alegre, participava dos rituais de confrarias de estudantes, vivia em uma destas casas, uma Alfa Beta Gama ou coisa do gênero. Isto não é pouca porcaria, não. Há que passar pelos rituais de iniciação, ou trotes, e de preferência tentar um conhecimento no sentido bíblico com um membro de outra confraria de estudantes, tipo a Phi Delta Lâmbida. Vocês têm idéia disso. Quem não viu o filme "Animal House" com o John Belushi ou a "Vingança dos Nerds"?

Um dia, um dia como este, de mais um céu azul, sem uma única nuvem no céu, caiu na maior tristeza. Had to record a clear sky


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11-05-2008

Um amor fugaz, por Nicolas Rouquette

Um amor fugaz

"Todo amor é eterno. Se morre, não era amor." --Nelson Rodrigues

Uma senhora distinta, bonita, até. Educadíssima, endinheirada, bem-situada na vida carioca. Conheci-a nos anos 80. Susana era prática. Casada com um grande companheiro de viagens, percorriam juntos a Europa. Já havia visto pobreza de espírito. Agora, trintona, com mania de dieta, tinha resolvido praticar seu inglês. Queria compreensão auditiva e conversação. Passamos as matérias que eu estudava no Cambridge-by-the-Bay juntas.

Minha técnica de compreensão auditiva não tinha erro. Aprendi a transcrever letras de músicas, com seus inevitáveis virunduns, no tempo distante dos gravadores "portáteis" de seis botões. Voltava a fita cassette até acertar. Ou errar e pedir ajuda.

Estudamos Albee, Tennessee Williams, Samuel Becket. Oscar Wilde. Conversávamos sobre assuntos da pauta do dia. Susana tinha o tato de não dar palpite político. Sabia que eu era Libelu e ela "Vassourinha",  eleitora do Lacerda e Jânio.

Um dia, quando voltei para o Brasil durante minhas férias de verão, de junho a agosto, encontramo-nos em um restaurante lindo, histórico, à beira da
Praça Quinze. Durante o almoço de lagostas gigantes que não existem mais, confessou-me que estava apaixonada. Atônita, aguardei detalhes. É verdade que sou verborrágica; contudo, presto muita atenção no que me dizem. Nunca me esqueço.

Praguejei para dentro de mim mesma. Era um homem casado. Ela também. Que desepero nesta paixão fadada ao incerto de encontros em motéis, ao começar de novo. Que dizer? Acertastes se dissestes que não dissesse nada. Entrei muda e saí calada.

Revi Susana alguns anos depois. O "amor" semelhante a chuvas de verão havia terminado. Seu marido estava morto; ela vazia. Arrasada e nunca mais arribou.

29-04-2008

A controvertida mulher que foi minha mãe, por Nicolas Rouquette

Vou dar a notícia aqui de uma vez, antes que o  ti-ti-ti assole a coleção de blogs que há no país. Maldita seja este tal de mal de Alzheimer. Peço a vocês, bem no estilo gringo que me poupem cartões, telefonemas, queria morrer mas tenho os meus filhos para criar. Por motivos kármicos bestas, sou contra o direito ao suicídio.
Minha mãe sempre detestou presente de bouquet de flores. Dizia que eram para os defuntos. Gostava mesmo de tirar mudinhas dos jardins da rua ou de cemitérios.
Se fosse acreditar nela, nasci do Espírito Santo; aquela coisa horrososa, não é nada como nas estátuas. Homem é feio mesmo, tirando o Brad Pitt, que acorda de manhã bate no peito e diz -- Sou o Brad Pitt! Essa é do Craig Fergusson.

Zefa, Zefina, Jo Harris aqui, apaixonada pelo cinema, poligrossa e poligota, era tradutora dos mapas históricos no Palácio Itamaraty. Palavrão só o merda e shit, shit, shit, já idosa, quando a mandávamos voltar para o seu quarto. Dizia que ia ficar nele, "Bye, bye!" Voltava para a mesa, contudo.

Foi uma das primeiras advogadas na Universidade do Brasil, junto com Clarice Lispector, Rogério Marinho, sim daquela família Marinho, Alziro Zarur, que para mim parecia o que veio a ser o movimento evangélico no Brasil, Zarur, que tinha um programa de rádio e distribuía a sopinha do Zarur.

Mommy nasceu em Alagoas, foi despachada para um colégio interno em Fortaleza, onde viviam seus avós maternos. Bagunceira com seus pertences,  as freiras a puseram na boca de um dragão aos pés da Virgem. Não sei se por teimosia ou disciplina auto-imposta. Segundo meu tio e padrinho ela ficou assim "ruim da cabeça" por ter estudado demais. Eu também, meu tio, eu também.

Teve alguns amores platônicos, comprava roupas baratas na "Orlontex" nunca em vermelho ou "cores de empregadas."  Depois a "Orlontex" virou "Seleções Modas." Cuidou do meu pai, outro ir(responsável), a gente escolhe mesmo que nem Édipo, até o fim.

Gostava de se gabar quando havia visitas de cartógrafos internacionais. Chegava em casa gloriosa e dizia:

-- Achatei! Caguei no crânio!

Fugiu da casa dos meus avós americanos. Foi para o sindicato avisar ao meu pai e de lá NYC. Tinha endomitriose, diziam que ela era histérica. Foi operada quatro vezes, teve suas duas filhas com meio ovário, nasci de placenta prévia, um dos muitos dramas de sua vida.

Pensei que a salvaria para sempre quando a importei pra cá em 3 de novembro de 1991. Dizem que filho não deve morrer antes que os pais. Porra nenhuma. Quando meu pai morreu fiquei subindo pelas paredes como lagartixa profissional. Sou contra remédios calmantes. Quero a dor pública. Quero chorar lágrimas de esguicho como chorei esta tarde. (citações do Nélson Rodrigues.)

Reproduzo aqui uma poesia que o Poeta Laureado me enviou. Seu pai teria feito 88 anos em junho.  É da Emily Dickinson. A tradução é minha, com uma ajudinha. E vida que segue, dizia o João Saldanha.

1078

The Bustle in a House                                   O Ir-e-Vir em uma Casa
The Morning after Death                               A Manhã após a Morte
Is solemnest of industries                             É atividade a mais solene
Enacted upon Earth --                                  Executada na Terra --

The Sweeping up the Heart                          Varrer o Coração
And putting Love away                                 Armazenar o Amor
We shall not want to use again                     Que voltaremos a usar
Until Eternity.                                               Só na Eternidade".
   
Emily Dickinson
 

Zefa,que era igual à sua mãe, que só ligava para os tripudos,  outra allumeuse, dizia: -- Meu netinho é uma graça! Achava que era casada com Nicolas. Quem sabe? Em sua honra estou rezando mais ou menos o rosário. Faz tanto tempo. A missa no Brasil e anúncio, não faço idéia. Temos muito que fazer. Por favor, uso a cara-de-pau da Gringolândia, façam uma doação singela que seja aos órgãos que pesquisam Alzheimer, este mal que esvazia a pessoa completamente.

Mommy e Gabi em 2002, depois da nossa derrota no Congresso.
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24-03-2008

Dona M. e sua filha, por Nicolas Rouquette

Ground Estávamos nos anos sessenta, todas com quinze anos ou dezesseis. Em Copacabana conheci uma senhora alemã, que tinha uma filha única. Em pouco tempo de papo, ou talvez porque eu fosse mais paciente que hoje, a senhora me contava de suas dificuldades para ter filhos, de como teve esta já em idade avançada, e pior, de como perdeu uma gestação depois de andar a cavalo; o feto saiu aos pedaços, segundo ela.
Não só era falastrona, verborrágica. Era uma coleção completa das Seleções e do Natural  Geographic. Além disso, era fã do Bob Dylan e dos Beatles. Filha e mãe tinham cada qual sua coleção de revistas e discos.

A filha era alta, branca, de olhos de gata, verdes. Tinha pernas longas que metia em botas de cano longo. Fazia um gênero. Seus estudos no colégio católico nunca foram longe. Seus namoros tampouco. Sei lá, tem gente que nasce sem muita sorte.

O apartamento ficava cheio de Beatlemaníacos duas vezes por semana. Eram tardes regadas a música, papo furado, exibição de discos, revistas, sanduíches e a agitação frenética de dona M. O apartamento tinha toda a mobília de tempos melhores, em um sala-três quartos no Jardim Botânico. Neste, em Copa, as divisões eram através de cortinas. Na sala havia um belíssimo divã para seis pessoas, em curvatura ameba, com pés que teminavam em ponta, verde musgo. Moderno, claro.

O tempo passa implacavelmente para todos. A gata alemã não deu mesmo sorte. Seu pai morreu. Sua mãe passou anos sofrendo de demência que só a música acalmava. Sem educação ou curso profissionalizante, a gata tomou conta da mãe e depois, depois.

Esta é uma historieta que o Nélson Rodrigues contaria bem melhor que eu. A moral dela é simples: estudai, estudai. Na época eu não era popular, talvez fosse c.d.f. demais ou fosse tímida e vista como sebosa. Não importa. A educação abriu as portas da sociedade para mim. Estudai, estudai. Esta historieta me veio à mente porque há um barulho de purificação dágua que não me deixa dormir; lembrei-me de Sra. M. e de sua filha porque é aniversário da filha em breve. Algumas flores para ela.Flor_lils

13-03-2008

Arnaldo Baptista convida, por Nicolas Rouquette

Ele mesmo, Arnaldo Baptista, irmão do Sérgio Dias, d'Os Mutantes, mandou este convite virtual.  Aí vai a informação que recebi. Estou contente que Arnaldo tenha conseguido publicar um livro que deve conter vários de seus desenhos, os quais estão no site. O livro se chama "Rebelde entre os Rebeldes."Rebeldes_entre_virtual O lançamento será no dia 30 de abril, quinta-feira,das 19 às 22
horas,na Livraria da Travessa do Leblon. Shopping Leblon, Rua Afrânio de Melo Franco,290, loja 205.




Ampliem para ver o telefone da Livraria da Travessa do Leblon. Até mais!

17-02-2008

O climatério -- continuação, final, por Nicolas Rouquette

Link primeira parte -- Clique abaixo.
https://attu.typepad.com/universo_anarquico/2008/02/climatrio.html

Chegavam os surfistas com o amanhecer, os pivetes do Arpoador, os primeiros vendedores de mate-limão-olha-o-mate-gelado-é-o-mate. O contraste entre o início de um dia e o fim de sua capacidade de procriar fez com que Joana buscasse a caxinha de Kleenex© que guardava sempre ao lado da cama. Chorava por auto-piedade, que feio para uma mulher que havia sido tão forte.  Deixou que as lágrimas escorressem do nariz sem fungar. Sua noção de suor em vez de sangue, de secura em vez de umidade a induziu a deixar as lágrimas correrem. Como e onde quisessem.
Pensou na Hillary Clinton. Era sua diva. A Hillary, que faria se o Bill saísse por aí com bebezinho de colo todo bobão? E se Hillary não tivesse sido sábia e tido a Chelsea? Espremeu o Kleenex fungado. Estava aí na manhã de sábado, cheia de contradições, incertezas e copos sujos de vodka com caroços de azeitonas.
Joana levantou-se, afinal. Olhou-se no espelho. ia descer e descolar unzinho e um surfista. Se não, o vendedor do mate. Qualquer coisa do amanhecer que a fizesse esquecer do seu crepúsculo feminino.

Tomou uma vitamina, duas aspirinas, um Engov©.  Escovou os dentes, o cabelo, ajeitou a cara e vestiu seu biquini e um sarongue.  No elevador deu de cara  com um vizinho que jamais havia cumprimentado. Disseram bom dia. Era um coroa -- e ela era o quê? -- um pouco cheinho mas alto, bem alto. Paulistano. Trabalhava na Internet. Coincidência, ela também. Desceram juntos. Iam ambos para a praia. Foram para a barraca da Tia Maria. Marcos não era nada mau de corpo. Como nunca havia reparado no seu porte antes, Joana? Ela se beliscava. Ele estava paquerando, era evidente. É o que fazem paulistas no Rio. Conversaram horas a fio. O sol a pino lhes disse que era hora de voltar pra casa.

No elevador de volta, o amasso foi inevitável. A decisão de onde parar foi feita em um átimo de segundo: a casa dele estaria mais arrumada. Joana estava excitada com a perspectiva de um romance, mesmo que fosse passageiro. Tinham muito em comum. Até os laptops eram Apple! Marcos a despia com seus olhos enquanto seus dedos hábeis buscavam a terra do desejo de Joana. Que secura que nada. Joana latejava, escorria, mas como climatério? Bobinha, não era mais fecunda mas mantinha seu desejo. Subiu no corpo de Marcos como uma salamandra ensandecida. Agarrou-se no portal, facilmente equilibrada pelo seu paulistano, nem que fosse seu por momentos. Gritou que era mulher, mulher, mulher, o mundo acabou por uns instantes e os dois esgotados caíram no chão.

Joana compreendeu que não teria filhos, ou surfistas mas poderia ter a felicidade do gozo e companhia masculina. Marcos admirava sua vizinha carioca, coroa sarada, e há tempos queria conhecê-la. Conseguiram ultrapassar a fase tesão, entrar na fase companheirismo e estacionar aí. Juntaram seus pertences, Joana parou de beber vodka porque suquinho da vida é muito melhor para a pele e para a saúde. Marcos e Joana viveram uma meia-idade confortável, com a renda do apê da Joana de quebra, longas discussões sobre cinema dos anos sessenta, psicologia, Lacan e Freud. Não tiveram nem filhos nem netos que os atrapalhassem nos seus estudos do sexo tântrico. Viveram felizes até a senilidade e depois. A senilidade nada mais é que a felicidade forçada em mentes embotadas e corpos lassos.

Nunca souberam quando um ou o outro morreu pois foram para casas de convalescência separadas. Joana sempre manteve sua relação com o mar, suas  marés, fluxos e refluxos. Climatério. Desejo e dor. Paz, enfim.Alvorada_arpoador

12-02-2008

Climatério, por Nicolas Rouquette

Joana acordou no meio da noite. De novo. Suada e só, imaginava que era a hora do lobo, a hora do nascimento e da morte, umas  três da manhã. A luz neon do posto de gasolina brilhava para ninguém. Silêncio de grande cidade. Um espocar ao longe que poderia ser de balas no morro ou de escapamento de carros sem manutenção.
Ela era uma mulher sem manutenção. Por mais produzida que fosse sua roupa, mais caros seus sapatos de matar baratas em cantos de paredes, indispensáveis para a mulher só, Joana sentia-se perdida sem homem. Aos quarenta e dois seu marido a havia deixado por duas de vinte. Joana sentia-se sem a vitamina H, essencial para a mulher carente.
Pedro não quis filhos. Agora desfilava por aí com cara de bunda carregando um bebê de uma outra enquanto Joana suava seu climatério no meio da cama sozinha no meio da noite suando sua raiva surda do ex-.
Nenhuma das mulheres do mundo está preparada para o momento em que a espada de Demóstenes as crava para que entrem na maturidade da vida ladeira a baixo. Dada a escolha, preferem a juventude irresponsável, as bebedeiras, o sexo anônimo ou de parceiros desleais sem compromisso. Quando se dão conta, a idade chegou e bateu à porta o fim da fecundidade.
O fim, pensou Joana. O fim. Já amanhecia para os surfistas.
(segue)
Arpoador_42003

23-12-2007

A pequena vendedora de caixas de fósforos- Século XXI, por Nicolas Rouquette

Conto baseado vagamente no conto de H.C. Andersen "A vendedora ambulante de caixas de fósforos"


Nevava muito naquela terça-feira do perído pré-natalino. Para piorar a situação, os meios de transporte de massa estavam em greve. Halimah, nome de guerra de uma nordestina algoana cafuza e bem-feita cujo nome verdadeiro era Jacinta, arrumava as trancinhas de Yasmina, sua filha única. Halimah trabalhava nas ruas, com sua bolsa pesada, que é a arma das mulheres que fazem o trotoir. Preparava sua filha para seu trabalho em frente ao aeroporto de La Guardia, em Queens. Sua filha também era bem ajeitadinha para seus sete anos.

Enquanto Halimah arriscava sua vida nas ruas do Lower Eastside, sua filha vendia caixas de fósforos em frente do aeroporto. Isqueiros são proibidos em vôos que partem dos EUA. Às vêzes Yasmina chegava em casa com cem dólares, dependendo da eficácia do seu charme. O sonho de ambas era de morar na Quinta Avenida, em frente ao Rockefeller Center. Quem sabe a sorte as catapultaria para um programa da NBC ?

Yasmina conseguiu uma carona porque qualquer carro naquele dia sem transporte coletivo era obrigado a ter quatro passageiros. Chegou no La Guardia. Todo mundo mal-humorado por causa da congestão do trânsito nas ruas, da moleza dos seguranças com as bagagens, todo mundo estressado com a obrigação de visitar a família ... Nem com todo charme do mundo a Yasmina conseguiria vender suas caixas de fósforos. E ainda por cima, nessa época do ano os fumantes desejam parar de fumar, parte do ritual de resoluções de fim de ano.

O frio aumentava, o vento e a neve faziam com que Yasmina estivesse com a pele meio roxa de frio. Acendeu um fósforo na área designada a fumantes. Um segurança lhe disse que é proibido fumar. A pequena se desesperava que sua mãe não chegava. Tiritava de frio.

Acendeu mais um fósforo escondidinha. E outro e mais outros.

De repente viu um monte de homens que pareciam robôs de tão duros no porte, com umas molinhas saindo do ouvido.

Cercada por estes homens estava uma mulher negra, certamente rica, sua bolsa Prada® com monogramas CR. Ela era solteira, dentuça, com cabelo alisado, devia ser importante e era. Mas nunca tinha tido filhos e seu petróleo não lhe bastava. Por alguma razão que só o Natal explica, aproximou-se de Yasmina. Depois de inteirar-se de sua situação através dos agentes robóticos, resolveu levar Yasmina consigo e adotá-la. Yasmina entrou na limusine de CR e foi-se para Georgetown. Matriculada na melhor escola de Washington D.C., Yasmina tinha um futuro brilhante à sua frente, recebendo aulas de evangelismo e de educação cívica do Partido Republicano.

Enquanto isso, Halimah, depois de pagar um tempo por descuidar da sua filha nos termos da lei, encontrou um milionário que geralmente só gosta de louras com nádegas de gaveta e nunca tinha encontrado o quê que a Bahia e Alagoas têm. Foi morar em várias coberturas, inclusive uma em frente ao Rockefeller Center. Verdade que esse cara era um chato, mas fazer o quê ? Pelo menos não precisava pentear a carapinha de Yasmina, que com o passar do tempo virou uma vaga lembrança. Passou a freqüentar o jet-set e mudou seu nome mais uma vez, para Blanca. Se não na cor, no nome.

Talvez se tenha arrependido Blanca quando no futuro sua filha se tornou a primeira presidente negra da história dos EUA, comandando o país com mão-de-ferro como sua mãe adotiva sempre havia sonhado. Mudou a constituição e se tornou a Rainha Yasmina.

Publicado previamente no Universo Anárquico BlogSpot em 22/12/06. Lara_nol_04 Obrigada pela atenção. Seu comentário é importante para mim.

08-11-2007

Uma gafieira moderna - Disquelite, por Nicolas Rouquette

Era uma gafieira moderna. Mantinha as cadeiras e mesas mínimas do tempo do onça só que refeitas em uma carpintaria na Bento Lisboa, no Catete. Era uma gafieira iluminada, quase discoteca do samba. Não era escura como a Elite, no Centrão velho, nem arriscava  ter barata prancha rondando em cantos de parede.  Os garçons seguiam à risca o uniforme branco com gravatinha borboleta e caras alternativamente de esfomeados a um passo da tuberculose ou caras gordas renascentistas. A gafieira era uma gafieira autêntica nouveau(sic) para o pessoal endinheirado mas não tanto solto no samba.

Sua localização era ideal. No Arco do Teles, ao lado da Praça XV das barcas para Niterói, o Arco do Teles renovado, cheio de vida noturna para trintões e trintonas.  E foi assim que se esbarraram. Ela tinha um riso fácil, Berenice, dentes tecnologicamente perfeitos.  Não era aquele risinho nervoso de mulher a perigo, aquele qui-qui-qui irritante de jovens com periquitas a perigo. Não, Berenice tinha um gargalhar de mulherão que sabe seu valor onde interessa.  Ele, Alfonso, de Icaraí, também era bem apessoado, uma certa calvície precoce que lhe dava um ar de homem confiável talvez de posses acima das suas. E bigodes antigos, respeitabilidade. Trancaram-se num samba um pouco aquém dos limites de decência no piso de uma gafieira. Disquelite era uma gafieira moderna. Valia tudo menos exposição de genitália.  Isso só nos bons tempos da Sótão na Galeria Alaska na Copacabana pré-praga.

Alfonso e Berenice rodavam felizes, ela às gargalhadas enquanto ele lhe dava uns amassos carentes de quem entende do riscado.  Foram finamente à mesinha que os aguardava. Ela pediu xarope de groselha com bastante gelo. Ele absteve-se do álcool; sua idade ditava prudência. Pediu uma tônica. Por motivos ideológicos não tomava coca-cola. Por motivos cronométricos tinha que sair da farra antes da Cantareira tocar a meia-noite.  Será que Bê toparia cruzar para Niterói com ele?  Podiam ir para sua garçonière em Icaraí e inventar desculpas para ambos consortes.  É, eram casados, a gafieira era momento de ilusão. Essa Bê era gostosa demais para largar assim sem mais.

Sentimento mútuo, Bê também está molhadinha de suor. Saem da Disquelite para as barcas, das barcas em táxi para Icaraí. Dentro do apartamento de encontros do Alfonso, rachado com outros cinco engenheiros, a decoração era acintosamente de prostíbulo de luxo.  Veludo vermelho, brocados, espelhos com molduras barrocas douradas. O cheiro, entretanto, era de consultório médico. Nada como dinheiro para apagar pecados na Terra. Depois a gente vê.

Já estavam no depois, saciados, escutando musiquinha do Roberto Carlos, que melhor não há nessas horas, quando entraram em papo furado sobre a vida real.

--Como se chama seu marido mesmo?

-- Alcebíades. Por quê? É engenheiro. E você com isso. -- Estava um pouco irritada com a invasão do real no quase virtual.

Alfonso quase gelou. Manteve a pose. Como quem não quer nada, mandou mais uma pergunta:

-- E teu Alcebíades trabalha onde, Bê? (Berenice era longo demais para uma zinha de uma noite só mesmo que valesse dez, potranca fogosa.)

--Ah, ele é engenheiro chefe de siderurgia.  É chefão e chato. Por quê?  Vem cá que o Rei está cantando "Muito Romântico."

Alfonso gelou. Alcebíades, chefão em siderurgia e chato só podia ser seu chefe. Um incompetente chato padedéu.  Voltou à conversa.

-- E você gosta deste teu marido, Alcebíades? --Uma ponta de ciúmes já o corroía.

-- Ah, se ele não desse tanto ponto para a Severina Regina até que ia. Acho que são. Amantes. Danem-se. Vem cá, gostosinho. O rei canta para nós.

Não preciso ir além nessa estoriazinha clichê. Severina Regina era nada mais nada menos que o nome da esposa do Alfonso. Coincidência de Maupassant.

Nem dez pílulas azuis o fariam obedecer aos pedidos do Rei no cassete da Bê. Ria e chorava sozinho. Bê, sem entender nada foi ao banheiro se lavar. Voltou vestida. Será que tinha entendido algo mais? Alfonso nunca chegou a saber.

Encontraram-se os casais em coquetel da siderurgia, uma ocasião rara para Alfonso em sua recente promoção.  Olhares furtivos e trocas de torpedos de papel prometiam um algo mais.  Quem sabe outra noite mágica no Disquelite?

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