Quem tiver um filho adolescente ou quem puxar por sua memória não vai ter grandes surpresas. Tenho que compartir com alguém meus ais. Nada melhor que meus anônimos, é, vocês que me lêem todos os dias e nada comentam! -- e meus amigos virtuais.
Meu filho é uma gracinha. Ele é escandalosamente bonito, mesmo com as malditas espinhas que ele espreme, mesmo com a falta de higiene típica da idade, quem me explica como é que ele não lava o cabelo a menos que eu mande? E escovar os dentes? É um bafo de tigre que por favor, é o fedor que o Vincent Price recita em "The Thriller" --The stench of a thousand years...E tromba? Ah, seu marido também? Será que são parentes os três?
Adolescentes não têm olfato exceto para comida que não presta: balas e mais balas, chocolate, batata frita. Só pode. Um garoto de 15 anos sem desodorante é uma sentença de morte: o famoso cheiro de jovem macho. Abram a porta de um deles de manhã. O budum é tangível como um objeto tri-dimensional.
Meu filho, único depois de três vezes de gravidez não vingada, além de ser lindo (e fedorento) é muito inteligente. Detesto esta palavra, inteligente, ora bolas tem um carinha que diz que são sete os tipos de inteligência. Como bom adolescente, Gabi pratica a oitava, que não foi descrita pelo guru Gardner: a inteligência mestra em evitar qualquer trabalho, físico ou mental. Exercíco pra ele é a música quando quer e aquele de todo adolescente saudável: fortalecimento de pulso. Ei, é a inteligência de evitar trabalho que ajudou aos homens. Não gosto de qualificar jovens como preguiçosos; preguiça é um termo tão amplo. Gabi tem uma sabedoria ímpar para inventar todo tipo de estória ou mesmo outra tarefa que lhe saiba ao paladar de maneira a não fazer o que tem que ser feito. Ele tem que fazer dever? Resolve passar uma vassoura na casa, ou ir no supermercado. Seu filhote é assim? Ah, seu marido é que é assim. Ah, o meu também... Homens não amaducem, talvez.
Tarefas obrigatórias que se tornam guerras épicas, além dos cuidados com sua higiene: alimentar o doberman e a gata, trocar a água, tirar a mesa e botar a mesa. Fazer o café da manhã. Manter seu quarto arrumado. Na escola ele tem que anotar os deveres e deve fazer os deveres a tempo. Levar o coitado do Lucky pra dar uma volta; Lucky está ficando velho coitado, tem oito anos.
Não é nada comparado a quando tinha nove anos; regava o jardim, catava pupu de cachorro e eram dois, tinha uma lista enorme de quefazeres Hoje ele inventa tanta estória, dribla qualquer trabalho que não interesse; manda pra escanteio a roupa, amarfanhada na esquina do seu quarto. Sua cabeça demi-française bate na cabeça do pai. Nesta partida não há vencedor, é sempre ôcho, empate dos teimosos.
Meu filho é como aquele personagem de desenho animado, o demônio da Tasmânia. Consegue transformar a casa inteira num futuá. Parece a ajuda democrática gringa no oriente médio. Se estuda na sala da minha mãe, onde pratica piano e alto saxofone, vocês encontrarão palha do sax dentro dos sofás, o livro que ele deveria estar lendo sob partituras, CD-ROMs empilhados aqui e ali. A escrivaninha está coberta de papéis. Roupa, sempre.
Se ele se aboletou na minha copa, onde se aboleta o pai, só Jesus. É recibo da farmácia, boletins informativos da SAMOHI, livros da estante de livros de referência, correio aqui e ali, lápis sem ponta de montes, mais canetas que não funcionam. Ele é engenheiro nato, gosta de desmontar as canetas.
O quarto eu mantenho com a porta fechada. Tiramos a escrivaninha do quarto para manter a bagunça só de roupa. Dei-lhe o direito de ter três animais de pelúcia. Deve ter uns dez. Aquele quarto parece realmente cenário de batalha conjugal. Tem de tudo para todos os lados.
Começou a fazer a barba. Tive um aperto na garganta, uma sensação que não consigo descrever. Perda do meu bebê? Não é isso, ele sempre teve muita independência. Medo de uma nova fase ainda mais desconhecida. Aborrecente. Mais alto que eu. Pelos no peito. Este mundo e suas revoluções em torno de si mesmo e do sol:
--Deixe-me sair, diminui a velocidade aí!
Deve ser que as mães gostariam de poder trancar seus filhos no útero. Chico Buarque escreveu sobre isto em uma canção da Ópera do malandro. É uma canção de raiva. O ódio e o amor estão separados por uma linha tênue disse outro compositor. (It's a Thin Line Between Love and Hate)
Ao mesmo tempo que meu guri tem todos estes defeitos e mais, ele é um doce. É carinhoso, beija a gente, quando está de veneta cozinha e faz deus deveres bem. Suas maneiras são impecáveis que Deus o conserve assim. Detesto criança mal educada. Ele gosta de ir à farmácia trocar abobrinhas com o dono dela, o Bob. Gosta de falar com os adultos. Não me contradiz em público. Sim, ele é um amorzinho.
É como o Billy Crystal descreve em "When Harry Met Sally". Há, no caso do filme, mulheres que exigem muita manutenção e outras de baixa manutenção. Gabi? Altíssima manutenção. Espero que dê certo, qual mãe deseja o contrário?
Às vezes, depois da enésima vez elevada à infinitésima potência ao ouvir alguém elogiar o Gabi:
--Ah, seu filho é uma gracinha, tão inteligente, bem-educado, ele é lindo!
Juro que digo sempre:
--Ah é? Quer levá-lo? Leva, faz favor...
( Aproveita e leva a gracinha do pai, também. Brinacadeira. Esse só de vela acesa.)