Mulher, a rainha do lar, por Nicolas Rouquette
Encontraram-se em uma festa em Paris. Ela era lingüista, tinha vinte e poucos anos, ele era argelino-parisiense. Ela tinha doutorado; ele era trotsquista, ateu e bebia. Beberam juntos até o esquecimento. Acordaram juntos sem saber aonde, nus, com enxaqueca, felizes. Ele gostou do jeitão dela, não reclamava, era smples, sem frozô de modas, tinha um sorriso lindo, olhos intrigantes, cor de azeitona verde. Por ela, ele era ótimo. Aprendia o francês com ele, ele cozinhava bem, era moreno. Ela tinha horror ao branco barata descascada de seus compatriotas.
Foram juntar os trapinhos na Bavária, a terra do Rei Ludwig, cuja loucura pela arquitetura lhe custou o trono mas legou uma fortuna em turismo aos alemães da Bavária. Viviam em um apê espremido, no quarto andar de um prédio sem elevador e quase que sem nada de mobília. Ela saía de manhã para refletir sobre as línguas do mundo, ele levava as duas crianças à escola, fazia café, fumava, lia seu jornalzinho comunista e se impacientava como se impacientam homens presos dentro de casa. Ele não conseguia aprender o alemão. Não conseguia emprego. Mal conseguia dirigir.
Era dedicado. Já disse que cozinhava bem? Ela era rainha do lar. De tarde saíam pra dar um rolé na cidadezinha universitária, onde ele não fazia tanta diferença; havia jovens com cabeleiras magenta, azuis, raspadas, encaracoladas, verdes, só não havia nenhuma menção ao nazismo, que na Alemanha é crime e tal. É sério.
Fim de semana chegavam os amigos, outros professores universitários, outros doutorandos, ele havia feito os quitutes e todos enchiam a cara. Uma vez há muito tempo, li que existe uma indisposição genética relativa ao álcool. Fico pensando se a proibição feita pelo profeta tinha a ver com isso. Já disseram, pessoal lá da terra deles, que eles não sabem beber. Quem não sabe beber não precisa aprender, digo eu.
Ele bebia, ficava contente, fazia piadas, de repente fechava o tempo. Fosse piada sobre o time de futebol, sobre a França, sobre o Corão do qual ele fazia pouco, fosse o que fosse, bêbado não precisa de motivo lógico. Ficava fulo, gritava e quando menos a gente se dava conta já tinha enchido sua esposa de bolachas.
Virou uma rotina. Ela teve que cancelar conferências por causa de olho roxo. Ela resolveu expulsá-lo de casa. Ele voltou. E voltava. E dava nela. A mulher que me dissera quando jovem que as mulheres precisam de homens como peixes precisam de bicicletas me disse na nossa última conversa ao telefone:
--Às vezes os peixes precisam de bicicletas, sabe?
--Não sei. Não sei, não.
Mal nos falamos hoje em dia. Tenho medo do que vou saber. Tenho pena da situação, dela, dele e dos meninos, dois. Detesto bebida, não suporto alcóolatra. Já vi muitos casamentos destruídos, pessoas em programas, dependentes, co-dependentes, é uma droga literalmente. Minha amiga, ficar em um casamento assim é uma roubada. Pule fora enquanto está viva. Pule fora, camarada.
Um bouquet para todas as mulheres neste dia 8 de março de 2007. Espero que um dia não sejamos oprimidas e que não venhamos a ser opressoras.
Até+!
Este conto faz parte da blogagem coletiva organizada por Denise Arcoverde no blog Sindrome de Estocolmo.
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Cheguei aqui pela blogagem da Denise.
Estou pasma, é sério?
Não deixe de falar com sua amiga. Às vezes, uma palavra pode fazer a diferença. Quem sabe ela não acorda enquanto há tempo?
:(
Posted by: Maharani | 08-03-2007 at 11:10
Não dá pra entender mulheres que são cultas e esclarecidas seguirem vivendo uma história dessas...
Eu desejo força para que elas consigam, de alguma forma, sair desta prisão.
Posted by: Ana Paula | 08-03-2007 at 14:53
Ei pessoal, a Tina falou que é "apenas" um conto!
[é um conto, Tina?]
Posted by: Cris S. | 08-03-2007 at 18:33
Ora, Cris S. é um conto, uma narrativa, em sua forma. Você quer saber se é verdade? Conheço muitas mulheres presas em relações de co-dependência mesmo nos dias de hoje, de divórcio drive-by. A co-dependência não tem a ver com a cultura das pessoas. É uma questão de ter vontade e apoio para deixar pra lá o outro, geralmente o homem, que bebe, que trai, através de mulheres de verdade ou virtuais.
Gilberto Gil já cantou sobre a necessidade de aprender a só ser. É difícil. Obrigada pelos comentários, Cris S. Ana Paula e Maharani.
Posted by: tina oiticica harris | 08-03-2007 at 18:42
Excelente, Tina! uma dessas histórias que se repetem pelo mundo afora! parabéns pelo texto e orbigada por ter participado da nossa blogagem!
Beijo!
Posted by: Denise Arcoverde | 11-03-2007 at 17:09